quarta-feira, 29 de abril de 2009


Voltaste com a força da madrugada. Entre o escuro procurei arrancar as lembranças do meu corpo. Tenho a sensibilidade á flor da pele, renasço de um cheiro já sentido e gasto tornado-se pequeno o espaço, entre mim e o reflexo do teu olhar. Voltaste ...
À procura de um lugar. Pertence-te. Deixa-me apenas tocar, entregar-me, soltar-me e mostrar-te, insinuar-me para que entendas mesmo no escuro, sem som e sem gesto, sem pressas e sem promessas, que sou somente e apenas tua. Agora podes ir embora...

"Porque não estás aqui?" Era a sua pergunta sem destinatário concreto ou conhecido, feita ao vazio e no vazio, na consciência de que nunca ninguém estaria ali, de que ali nunca haveria ninguém para vir ter com ela num tempo menos efémero, que a sua ruptura da noite teria de se fazer como até então, ao sabor das fomes repentinas e de encontros avulsos, de insatisfações permanentes e de aventuras sem compromisso, de fulgores precários e de breves epifanias, como as do fogo-de-artifício a enredarem-se no fio de Ariane interminável que ela assim desenrolava no seu próprio labirinto e nunca a nada a poderia prendê-la e nunca ninguém haveria de indicar qualquer espécie de caminho que lhe dissesse respeito.
Foi o fim da madrugada, quando tomava o chocolate quente da praxe com os Silveira Pimentel, que Monique decidiu que afinal ficaria no Porto e que no Porto passaria a ser o seu tédio e a sua solidão insatisfeita.

Vasco Graça Moura

sexta-feira, 17 de abril de 2009



Há dias em que me tiras a alegria, afugentas os meus sonhos não sabendo tu que eles há muito morreram numa asfixia silenciosa.


Eu digo que, mais tarde, se lembrarão de mim.

Safo - O desejo

quinta-feira, 9 de abril de 2009


Quando digo «isto»
é a mim que vês na ponta dos dedos?
Ou é ao olhares-me
que o mundo se revela em ti?...


Rosa Alice Branco

(photo of Secret@)

terça-feira, 7 de abril de 2009


Devia ser proibido desejar-te tanto, amar-te tanto. Consigo seguir no escuro o teu olhar, correr atrás do som dos teus passos. Debaixo de uma manta, encosto a minha cabeça sobre o teu colo, deitada sobre a vigília do teu olhar. Encolho os ombros, reconforto o pescoço do frio, sorrio-te. És tão natural, és tão tu, tão natural como estares em tudo o que é vida. O encanto de não necessitar do silêncio para nos escutarmos, no entendimento cumplice de existirmos unicamente na clandestinidade... sorrimos ...
Por aquele desejo que sorves de mim, confesso-te secretamente ...
Amo-te



... Ela tem em si o perfume insubstituível do
poder dele sobre ela...

Marguerite Duras

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Acordei com uma saudade invasora. Chamo-te em tom baixo para que te juntes a mim num sonho real. Descubro-te num sonho, numa cama incompleta e coberta de vazio, na ausência da ternura, entre gestos que ficaram de empatia, em essências que habitam num espaço sem cheiro.
... Como te poderia transformar em nada, trocar-te pela indiferença ou transformar a ausência pela tua presença. Poderia transformar os instantes pela eternidade, baralhar a certeza com a incerteza. Cansa-me o correcto, entristece-me o longínquo, fico feliz com um sorriso, desperta-me a sedução, vicia-me a paixão... mas mesmo assim guardo-te.
Sempre que me fazes falta, quando te lembro, na falta dos sorrisos, na falta dos gesto, na ausência dos abraços, simplesmente ...
...Sonho-te


Não me parecia que estivesse a representar, ele era natural de mais para o fazer e era manifesta a sua sinceridade; porém, havia algo no seu íntimo, não sei se lhe chame consciência, sensibilidade ou força interior, que o mantinha estranhamente distante.


Somerset Maugham - O Fio da Navalha


sábado, 4 de abril de 2009



I've heard people say that
Too much of anything is not good for you, baby
Oh no
But I don't know about that
There's many times that we've loved
We've shared love and made love
It doesn't seem to me like it's enough
There's just not enough of it
There's just not enough
Oh oh, babe


My darling, I can't get enough of your love babe
Girl, I don't know, I don't know why
Can't get enough of your love babe
Oh, some things I can't get used to
No matter how I try
Just like the more you give, the more I want
And baby, that's no lie
Oh no, babe

Tell me, what can I say?
What am I gonna do?
How should I feel when everything is you?
What kind of love is this that you're givin' me?
Is it in your kiss or just because you're sweet?

Girl, all I know is every time you're here
I feel the change
Somethin' moves
I scream your name
Do whatcha got to do

Darling, I can't get enough of your love babe
Girl, I don't know, I don't know, I don't know why
I can't get enough of your love babe
Oh no, babe

Girl, if I could only make you see
And make you understand
Girl, your love for me is all I need
And more than I can stand
Oh well, babe

How can I explain all the things I feel?
You've given me so much
Girl, you're so unreal
Still I keep loving you
More and more each time
Girl, what am I gonna do
Because you blow my mind

I get the same old feelin' every time you're here
I feel the change
Somethin' moves
I scream your name
Do whatcha got to do

Darling, I can't get enough of your love babe
Oh no, babe


Baby, let me take all of my life to find you
But you can believe
it's gonna take the rest of my life to keep you


Oh no, babe
My darling, I can't get enough of your love babe
Yeah, I don't know, I don't know, I don't know why
Can't get enough of your love babe
Oh my darling, I can't get enough of your love babe
Oh babe
I don't know, I don't know, I don't know why
I can't get enough of your love babe
Oh babe


Can't Get Enough Of Your Love Babe
Barry White
Nota:
Confesso que adorei a letra, resta o tempo.
Fico feliz com tão pouco
(mordanhavida? ... tamo)

segunda-feira, 30 de março de 2009


Hoje apeteceu-me olhar-te de longe ... sobre ti consegui tocar-te sem que me sentisses. Não precisei de te encontrar, depressa achei um caminho até bem junto de ti. No mesmo quarto, na mesma cama conseguia compartilhar o mesmo ar, sentir o mesmo cheiro até mesmo perceber o teu pensamento. Sei que nada faz sentido, não entendes, mas talvez também já me viste assim. É sempre a mesma falta de ar quando vejo na tua pele a minha presença, num arrepio que te possa parecer um frio vindo da janela, em mim tenta-se quebrar um silêncio, os pulmões em exaltados espasmos, agarro na tua mão, aperto forte para que percebas que estou ali ... com os meus dedos desenho nas tuas costas, leve para que demores a compreender ... escrevo lentamente para que acredites, escrevo entre os sinais e a pele, Amo-te... Ouço-te ao fundo, o sorriso ... finjo a mim mesma que estou a viver na realidade, adoro olhar-te ... olho-te, em ti descubro as cores, os sons. Sente a minha mão no teu pescoço, uma mão quente, sente como se o mundo recuasse devagar, sente o som do meu sorriso como só tu o sabes ouvir. Como é que não me podes ouvir? ... quando te ouço em qualquer lado. Como é que não és capaz de me olhar, se para mim é suficiente um olhar teu para sentir um estremecimento? ... Estou no aqui, no teu mundo, num mundo tão perto do nosso, tão perto que consegui chegar até ti, tão perto que pensei que te poderia tocar.
... Encosto-me, abraço-te ... continuas igual, sei que desse lado estás tu, bem diferente de mim, não me consegues ver da mesma forma que te vejo... Quando adormeceres vou deixar de preencher o teu espaço... Logo quando amanhecer vou dizer-te adeus, e irás entender que todo o mundo me vê menos tu.


Desenha com a ponta dos teus dedos as fronteiras exactas do meu rosto, as rugas , os sinais a cicatriz que ficou da infância, o lento sulco das lâminas onde no peito se enterra o mistério do amor e diz-me o que de mim amaste noutros corpos, noutras camas, noutra pele . Prometo que não choro mas repete as palavras um dia minhas que sem querer misturaste nas tuas e levaste com as chaves de casa e os documentos do carro e largaste sobre a mesa com o copo de gin a meio na primeira madrugada em que me esqueceste.

Alice Vieira


sábado, 28 de março de 2009


Há banquetes que se tornam deliciosos para quem nos observa, onde os cheiros invocam as sensações verdadeiras, emoções suicidas que dão fim a um desejo carnal. Existe entre cheiros e sabores, entre corpos exaustos e outros mortos, sinais de consumação de momentos enojados envoltos num aroma forte de tabaco... onde observo as curvas delineadas, num corpo suado, rosto consumido pelo cansaço, de mão dadas de olhos cerrados me indica o caminho para continuar a ganhar forças onde já esgotadas se entregam aos lençóis onde me cubro absolutamente do nada. Quero apenas o silêncio, permanecer imóvel, convencer-me que apenas nos tocamos como humanos... ansiando uma saída sem reencontros onde desde o principio nunca mais poderá haver desencontros. Existem algumas coisas de que gosto, mesmo sem conseguir dizer o porquê, talvez não exista razão, onde não o faço por obrigação ... simplesmente sobrevivo...
Inspiro sem medo, o próximo acto ... na incerteza de que (será) que estás sempre a meu lado?



Atravessamos o presente de olhos vendados. No máximo, conseguimos pressentir e adivinhar aquilo que estamos a viver. Só mais tarde, quando se desata a venda e examinamos o passado, é que nos apercebemos daquilo que vivemos e compreendemos o seu sentido.
Pensava eu que naquela noite estava a brindar ao meu sucesso e nem por sombras imaginava que era a abertura solene do meu fim.

Milan Kundera



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sexta-feira, 27 de março de 2009


Existem palavras que traduzem a verdade da minha sincera inocência.

domingo, 22 de março de 2009


A noite não tem braços
Que te impeçam de partir,
Nas sombras do meu quarto
Há mil sonhos por cumprir.

Não sei quanto tempo fomos,
Nem sei se te trago em mim,
Sei do vento onde te invento, assim.
Não sei se é luz da manhã,
Nem sei o que resta em nós,
Sei das ruas que corremos sós,
Porque tu,

Deixas em mim
Tanto de ti,
Matam-me os dias,
As mãos vazias de ti.

A estrada ainda é longa,
Cem quilómetros de chão,
Quando a espera não tem fim,
Há distâncias sem perdão.

Não sei quanto tempo fomos,
Nem sei se te trago em mim,
Sei do vento onde te invento, assim.
Não sei se é luz da manhã,
Nem sei o que resta em nós,
Sei das ruas que corremos sós,
Porque tu,

Deixas em mim
Tanto de ti,
Matam-me os dias,
As mãos vazias de ti.

Navegas escondida,
Perdes nas mãos o meu corpo,
Beijas-me um sopro de vida,
Como um barco abraça o porto.
Porque tu,

Deixas em mim
Tanto de ti,
Matam-me os dias,
As mãos vazias de ti.

Pedro Abrunhosa